Olhava fixamente para a formiga que caminhava na parede e continuaria imóvel até escutar o terceiro toque do telefone. Do outro lado da linha, era só mais um engano.
Os dias quentes lhe permitiam sentar num degrau da escada e já era de se esperar que a encontrassem lá, sentada, olhando atentamente o céu mudar de cor ao anoitecer. Para ela a noite não era o fim do dia, era apenas uma singela continuação. Achava essa naturalidade tão bela e por um instante acreditava viver um momento unicamente seu.
Tudo lhe revelava. As unhas roídas, os cabelos em uma trança cuidadosamente desalinhadas, os lábios levemente rosados, contrastando com a palidez de sua face com leves algumas marcas avermelhadas, já que tudo marcava sua pele com tão grande intensidade, assim como a sua alma, fortemente marcada por situações visivelmente leves, afinal tinha sensação que tudo lhe exigia demais, fazia cobranças exageradas acerca dela mesma.
Gostava de filmes antigos e imaginava-se naquelas roupas, com aqueles princípios, com aquelas características e a cada novo dia tinha quase certeza de que nascera na época errada, ou não pertencia a esse planeta.
[Mariana Oliveira]
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